Transparência no jornalismo: o passo seguinte

Em Abril deste ano, a Reuters introduziu duas pequenas alterações na forma como publica notícias. O objectivo último? Reforçar a credibilidade.

A primeira mudança, visível em todos os artigos, foi a inclusão de uma ligação para os seus trust principles, ou os cinco mandamentos do jornalismo Reuters, que estabelecem princípios fundamentais de independência e verdade e que cumprem a dupla missão de servir de tutorial ético aos jornalistas e de garantia aos leitores e clientes da agência.

A segunda, em artigos seleccionados, deu origem às chamadas backstories, associadas a matérias que exijam explicações adicionais sobre o método produtivo. No fundo, informação de contexto sobre o caminho percorrido pelo jornalista na produção da notícia.

In addition, from time to time, when we think it might be useful to the reader, we will also provide an explanation – which we are calling Backstory – of how we have reported a particular piece. Backstory will be presented as a statement of methodology or a Q&A with a Reuters journalist.

Semanas antes, em Janeiro, com Trump recém-chegado à Casa Branca, o director Steve Adler já tinha partilhado com a equipa e o público a “Reuters Way” na cobertura a dar ao novo presidente dos Estados Unidos.

Os exemplos citados não representam uma absoluta originalidade. Há anos que importantes marcas do jornalismo percorrem caminhos semelhantes, mostrando ‘o outro lado das notícias’, abrindo ao debate público os processos de decisão editorial. Um dos programas de maior sucesso da CNN é, precisamente, o seu Backstory – “see how CNN crews get the story”. Mas isso não diminui a importância deste passo dado [agora] por uma agência que se mantém como referência numa indústria em transformação e que, não sendo ainda uma tendência é, pelo menos, um sinal.

Talvez até com algum exagero, expressões como “fake news” ou “pós-verdade” entraram no nosso vocabulário comum. Um sinal deste tempo hipermediatizado que vivemos e que, não raras vezes, nos causa profunda estranheza.

Havemos de falar em maior detalhe sobre a forma como não estamos preparados para lidar com as transformações mediáticas que estão a acontecer. Para já, interessa-nos, em particular, o efeito da hipermediatização na forma como lidamos com os conteúdos mediáticos, em geral, e com os conteúdos jornalísticos, em particular.

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Stephen J. Adler (Foto: https://www.aspenideas.org)

O sinal de abertura que é dado pela Reuters, e por outros órgãos de comunicação social com práticas semelhantes, parte da transparência para chegar à credibilidade. E esta é uma jogada inteligente. Mais, será mesmo um dos caminhos para salvaguardar a centralidade do jornalismo, no seu papel de mediador, nas nossas sociedades.

Impreparados, com baixo nível de literacia mediática, os cidadãos não têm as competências necessárias para distinguir conteúdos. É preciso dar um passo atrás, e dizer “repara, isto é a nossa forma de te contar o mundo” (e assim ajudar a educar para os media).

Adoptar essa prática construtiva, de valorização da marca e da função social da missão que exerce, será sempre uma melhor opção do que percorrer o caminho inverso – e, para todos os efeitos, ainda maioritário – de colocar o ónus da ‘crise do jornalismo’ na Internet, nas redes sociais ou, pior ainda, no consumidores.

 

Fotografia de topo: http://eternaldreams.co.uk/bbc-broadcasting-house 

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