Jornalismo: [mais] conteúdo e [menos] distribuição

Uma verdade de La Palice: as empresas de comunicação social estão confrontadas com enormes problemas na luta pela sobrevivência.

Em poucas linhas, já que estamos a repisar um tema antigo: a publicidade, que garantia a cobertura da grande maioria dos custos operacionais, já não chega para pagar as contas e os operadores são obrigados a procurar novas fontes de receita.

Durante décadas, coube aos media tradicionais o monopólio da produção e distribuição de conteúdos e, como tal, o monopólio de quem estava disposto a pagar [muito] para fazer chegar a sua mensagem às massas. O desenvolvimento tecnológico alterou esta equação, antes tão simples e tão lucrativa. As mudanças ocorreram (ocorrem) em toda a cadeia: produção, distribuição e consumo.

Se a transformação era inevitável, o estado de negação com que os mass media tradicionais encararam o período de transição mostrou-se contraproducente. Ao invés de jogarem o seu peso na definição do mercado futuro, os players com escala para definir tendências preferiram desvalorizar aquilo que estava a acontecer, abrindo espaço para que outras empresas afirmassem os seus modelos de negócio.

Ora, Facebook e Google, para citar os dois exemplos mais óbvios, actuam precisamente na segunda etapa, desenvolvendo plataformas focadas na distribuição de conteúdos, produzidos por quem quer que seja, destinados a quem quer que seja.

Curiosa ou paradoxalmente, os dois exemplos que referimos no parágrafo anterior têm a publicidade como grande fonte de receitas. A mesma (ou quase a mesma) publicidade que desapareceu das páginas dos jornais, dos intervalos de televisões e rádios, está agora em plataformas utilizadas por milhões de pessoas, sobre as quais os gigantes da Internet sabem tudo.

Assumir que os media tradicionais estão a perder a guerra da publicidade, não é igual a dizer que a publicidade deixou de ser relevante nas suas estratégias comerciais. Significa que, como vimos, já não chega.

Em resposta, as empresas afectadas pelo novo paradigma têm centrado atenções na distribuição: não importa o conteúdo que produzimos e publicamos, logo que ele chegue a muita gente. Anos de clickbaite, ininterruptos emagrecimentos de estrutura, não foram suficientes para convencer CEO e directores sobre os riscos deste caminho.

A dada altura, numa entrevista recente à Faculdade de Comunicação, da Universidade de Navarra, o especialista em media economics, Robert Picard, diz uma daquelas frases que resumem tudo em poucas palavras: “losing focus while looking for clicks doesn’t bring in money or audience”.

É de jornalismo que temos estado a falar. A distribuição de conteúdos jornalísticos é importante (é essencial, claro, e até é hoje mais fácil e directa do que no tempo da abundância), mas só se tivermos um conteúdo que mereça ser distribuído e pago – por alguém e não necessariamente (ou não exclusivamente) pelo leitor.

Mais do que inflaccionar pageviews com um público indiscriminado, pouco preocupado com a página de destino do clique que fez numa rede social, o que eu quero é criar uma comunidade engajada com o meu conteúdo, que se sinta parte ‘daquilo’, que reconheça a importância da minha marca e a relevância das matérias que produzo. Esse sentimento de pertença aumentará o meu valor de mercado e abrirá, a prazo, novos caminhos de financiamento (como parte de uma discussão que faremos, a seu tempo). Se eu souber quem está comigo, quem me acompanha e que preferências têm essas pessoas, estarei mais perto de produzir conteúdo impactante.

The relation with the audience has changed. They are no longer anonymus.

Robert Picard

Como também nos diz Robert Picard, o jornalismo é importante, especialmente para os jornalistas. Para a maioria das pessoas, o jornalismo só interessa quando acontece alguma coisa, o que é curto para manter o negócio. Portanto, o foco prioritário não pode ser essa massa indefinida.

Algumas organizações de media já perceberam isto e vão caminhando no reforço da identidade própria. Falaremos delas noutra ocasião.

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  1. […] diz Robert Picard, numa entrevista que já referenciámos, os jornais tendem a centrar a sua acção na captação de novos assinantes, esquecendo-se […]

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