“Voyeur” ou um atropelo à ética

Estreou esta sexta-feira (1/12), no Netflix, o documentário Voyeur, de Myles Kane e Josh Koury.  O filme acompanha o processo de investigação jornalística que deu origem ao livro The Voyeur’s Motel, de Gay Talese.

Veterano jornalista norte-americano, Talese é uma referência – por vezes controversa – do chamado jornalismo literário. A sua obra mais famosa, Thy Neighbor’s Wife, um relato sobre a vida sexual dos norte-americanos, foi uma pedrada no charco, na década de 80.

The Voyeur’s Motel (que também foi um artigo na New Yorker) conta a história de Gerald Foss, um voyeur que nos anos 60 comprou o Manor House Motel, no Colorado, com o único propósito de observar os hóspedes na sua vida íntima, missão que cumpriu durante décadas, com surpreendente obsessão. Já o documentário usa Foss como pretexto mas tem como enredo o caminho percorrido pelo jornalista na produção do livro. Assim, Voyeur é, acima de tudo, um documentário sobre jornalismo, ética e deontologia e os problemas que resultam desta investigação.

Com 85 anos, bon vivant, Gay Talese é, ele próprio, uma figura ímpar, resgatada de uma Nova Iorque dos anos 60 e 70 que nos habituámos a ver no cinema. Defensor de uma observação participante, assumiu à data da publicação de Thy Neighbor’s Wife, ter, ele próprio, participado em muitas das experiências sexuais que relata no livro. Tem sido essa a sua abordagem e foi essa, mais uma vez, a opção que escolheu na investigação que deu origem ao livro sobre o dono do motel no Colorado.

Talese é honesto com o leitor: assume que esteve lá, que participou daquilo, que se envolveu – “he’s not creepy”. Não foi, e não tenta parecer, um observador distante e desinteressado. Essa honestidade é fundamental na relação com o público, mas pode não ser suficiente. O envolvimento emocional/afectivo é quase sempre um problema para o jornalista. A relação que ultrapassa a esfera profissional, que se transforma em amizade, representa um risco para a integridade profissional. Somos menos objectivos ao falar de quem gostamos (ou de quem não gostamos, no extremo oposto).

Não sou um purista da objectividade. Qualquer jornalista com alguma experiência sabe que o conceito não existe em si mesmo e deve ser usado, acima de tudo, como referencial. O público tem o direito de saber com o que pode contar. Os problemas da investigação de Gay Talese surgem dos laços afectivos que o repórter criou com a sua fonte mas vão muito além dessa proximidade, cimentada em trinta anos de conhecimento mútuo. As fragilidades éticas do trabalho jornalístico estão, essencialmente, na não verificação de factos que, revelando-se falsos ou imprecisos, comprometem a narrativa ou partes dela. O livro demonstrou-o e o documentário comprovou-o: Talese foi descuidado porque, parece-me, não quis arriscar uma história demasiado boa.

In the most electrifying moment, Talese intercepts a question directed at Foos and excoriates the documentarians for what he clocks as dishonest reportage technique. Talese calls out the directors for trying to trick Foos into speaking hypocritically, and in doing so, casting doubt on himself and his testimony. He’s not wrong – that’s exactly what they’re trying to do – but it’s also what the situation calls for. In a tangled nest of half-truth and outright lies, Koury and Kane grasp for one bit of honesty, even if that’s an honesty about fakeness. It’s Talese who can’t handle the truth.

Charles Bramesco, no The Guardian, sobre Voyeur

A ética é uma defesa contra as fragilidades que resultam da nossa condição humana. As regras estabelecidas nos códigos de ética e conduta são um recurso ao dispor do jornalista.

Há um par de anos, numa formação em Londres, ouvi de Keith Stafford a melhor frase que um jornalista pode usar para despistar problemas de julgamento: “too good to be true”. Se uma história é demasiado boa para ser verdade (e a história de Foss é real), então é provável que alguma coisa nos esteja a escapar.

Voyeur é um documentário que merece ser visto por quem se interessa por estes temas.