The Guardian: leitores que pagam… porque sim

O jornalismo não passou de moda. Na realidade, embora o seu papel esteja em transformação, os jornalistas são hoje mais necessários do que nunca. Às portas de 2018, a centralidade desta profissão e a importância daquilo que fazemos resulta directamente do mundo complexo em que vivemos. Precisamos de jornalistas, porque precisamos de quem nos oriente no meio da confusão que são os espaços mediáticos.

Por isso, evito ao máximo usar a expressão “crise do jornalismo”. Ela não existe. O que existe é uma crise dos media, que ainda não conseguiram reencontrar-se, depois das mudanças nos paradigmas comunicacionais, introduzidas, muito em particular, na última década.

Na essência, aquilo que o jornalista faz – e sempre fez – é interpretar factos. Observa a realidade, apura, selecciona, interpreta e hierarquiza factos. Ora, isto é fundamental. O jornalismo só é descartável quando não é jornalismo.

Há uns dias, fizemos uma primeira aproximação ao tema da sustentabilidade das empresas de comunicação social, confrontadas que estão com perdas acentuadas de receitas e obrigadas, que também estão, a mudar os seus modelos de financiamento. Porque o jornalismo é importante e porque o bom jornalismo não é barato, é fundamental que as organizações se reconfigurem e descubram as estratégias de financiamento que melhor se adequam aos seus objectivos e posicionamento no mercado.

O The Guardian é uma referência. Marca do jornalismo mundial, distingue-se pela excepcionalidade: da qualidade das opções editoriais, à estrutura accionista e modelo de gestão.

The Guardian has no proprietor in the normal sense of the word. While many of our readers would not know the Scott Trust from a bar of soap, its job is to secure the financial and editorial independence of the Guardian in perpetuity and to uphold the values laid out by CP Scott, which underscore all we continue to pursue today in our journalism: honesty, integrity, courage, fairness and a sense of duty to the reader and to the community (…) the Scott Trust is the sole shareholder of the Guardian Media Group, which publishes theguardian.com, and the Guardian and the Observer newspapers. This means all the resources of the company belong to the trust, but it delegates the operational running of the business to the Guardian Media Group board which invests that money, first and foremost, in theguardian.com, the Guardian and the Observer, and then in any other businesses designed to bring in income, increase capital value or help in some other way to develop the company.

Liz Forgan, The Guardian

Em 2016, o jornal colocou no centro da sua estratégia de captação de receitas o programa de membership, através do qual a comunidade de leitores aceita fazer uma doação mensal ao jornal ($6.99/mês), em troca de… bom jornalismo. A campanha, presente em todas as páginas da edição online, da home aos artigos, faz um apelo directo ao lado mais emocional do projecto, realçando a importância da missão que o The Guardian cumpre.

Os resultados estão à vista, mesmo que sejam apenas parte da solução. Os prejuízos estão em queda, os membros em rápido crescimento e as receitas geradas por este segmento já ultrapassam as receitas publicitárias.

Last month, editor-in-chief Katharine Viner announced that financial support from readers had officially surpassed advertising revenue, noting that 500,000 individuals contributed monthly to the Guardian as members and print/digital subscribers and another 300,000 one-time donations have added to the organization’s coffers.

Nieman Lab

Claro que o modelo do The Guardian não é replicável a todos os projectos, indiscriminadamente. Apenas uma minoria das marcas de media é suficientemente forte para se servir desta estratégia. O The Guardian usa-se a si próprio como argumento, porque sim, porque pode.

Mas o The Guardian não é apenas um exemplo nos números do financiamento directo dos leitores. É paradigmático, também, pela forma como percebe a importância de criação de uma comunidade virtual, emocionalmente engajada com o projecto, que sinta o jornal como seu e que, por isso, queira fazer parte dele a longo prazo. Natalie Hanman, responsável pelo programa de membership, é clara: “we want to keep growing our base but making sure the 800,000 supporters we have feel valued,”

Engagement with Guardian members includes a weekly newsletter to supporters, a weekly “behind the scenes” story production series, a Q&A with a columnist, and even a podcast based on supporters’ calls and questions. Hanman and Michel said the next goal is not based on reaching another metric milestone, but on delving further into reader relationships.

Nieman Lab

Como diz Robert Picard, numa entrevista que já referenciámos, os jornais tendem a centrar a sua acção na captação de novos assinantes, esquecendo-se daqueles que já lá estão há mais tempo, convencendo-se de que a assinatura é um fim em si mesmo. Não é. Captar um novo membro para a minha comunidade é o passo mais fácil. Mais difícil, mas muito mais importante, é garantir que esse membro se sente em casa, está confortável e, por isso mesmo, sem vontade de ir embora.

 

 

Anúncios
Anúncios
Anúncios