As redes sociais como fonte? Sim, mas…

Comecei o dia a ler a conversa de Lara Jakes e Steve Kenny no Insider, a secção do New York Times dedicada aos processo produtivo das suas redacções (a tal transparência, lembram-se?). Jakes e Kenny trocam ideias sobre as ‘noites loucas’ (a expressão é minha) proporcionadas por um Presidente norte-americano com insónias e um gosto especial pelas redes sociais… ou por uma, em particular.

O Twitter tem sido usado pelo inquilino da Casa Branca como veículo preferencial para anunciar decisões, responder aos opositores e insultar jornalistas. O lado impulsivo do Presidente dos Estados Unidos e o facto de actualizar o feed a horas menos convencionais transformou os turnos da noite em momentos muito mais animados.

Aquilo que o presidente da maior potência do mundo diz, onde quer que seja, tem importância potencial. Pela exposição do cargo que ocupa e pelo papel decisivo dos Estados Unidos na cena internacional, qualquer declaração pública de Trump tende a ser, por defeito, jornalisticamente relevante.

A utilização das redes sociais como ferramenta de comunicação política não é uma novidade da actual administração, nem uma singularidade da política norte-americana, muito pelo contrário. O que distingue Donald Trump é a forma como sucessivamente elege os media sociais como canal para anúncios oficiais (até porque hostiliza os media tradicionais), com recurso a um tom extremado e provocativo, em consonância, aliás, com a sua postura habitual e com a imagem pública que promove.

In the Trump administration, news can develop in such a haphazard way. You always have to be prepared to move, and in a hurry.

A good example is the fight that began the day after Thanksgiving over leadership at the Consumer Financial Protection Bureau. We weren’t going to cover the initial report — that the director would step down early, at midnight — but before we were through that night we had a story that was No. 2 on the web and A1 in print. We went from zero to 60 very quickly.

Steve Kenny

A última década mudou a prática jornalística, também, ao ao nível das fontes de informação usadas pelos jornalistas. As redes sociais crescerem e afirmaram-se como canais de comunicação, por vezes preferenciais, aos quais os cidadãos, em geral, e os protagonistas da vida política, económica, social e cultural, em particular, recorrem amiúde.

Nem tudo o que acontece nas páginas e perfis é jornalisticamente relevante. Apenas uma ínfima parte daquilo que é publicado tem, de facto, interesse noticioso, mas a simples existência dessas plataformas e a presença nelas de gente que marca o quotidiano e estabelece agendas exige atenção ao que por lá se passa.

Atenção e cautela. Dos jornalistas, no uso dos media sociais como fonte jornalística, espera-se a consciência de que na Internet (como na vida, em geral) as coisas nem sempre são o que parecem.

A discussão em torno do uso das redes sociais como fonte – não apenas nas esferas de decisão e sim em sentido geral – faz-se há alguns anos. Conscientes do impacto que essa relação próxima com as plataformas de social media pode ter na sua credibilidade, as organizações vão, aos poucos, estabelecendo regras sobre a forma como os jornalistas se devem comportar no mundo virtual, quer naquilo que por lá publicam em nome próprio (e no futuro falaremos sobre isto), quer no uso daquilo que outros publicaram.

A validade das redes sociais não deve ser desprezada. As redes fazem parte do espaço público e estão, portanto, na esfera de interesse jornalístico. A sua centralidade tem sido demonstrada em diversas ocasiões. Fundamental é capacitar os jornalistas para o seu uso, em consonância com aqueles que são os princípios éticos e deontológicos da sua profissão. Este é um debate válido e necessário, que deve ser aprofundado nas redacções e pelos organismos que representam a classe.

Há um par de anos, na redacção que dirijo, eu e os meus jornalistas estabelecemos um guia de consulta rápida para o uso das redes sociais enquanto fonte. Partilho-o convosco.

  1. Verificámos a informação?
  2. Tentámos contactar o suposto autor?
  3. Temos a certeza de que a informação foi publicada pelo suposto autor ou que este está consciente da publicação?
  4. Não existe outra fonte sobre a matéria?
  5. Se a informação se revelar pouco ou nada rigorosa, que consequências para a nossa credibilidade?

Na dúvida, não usar. Investigar, confirmar.

Deixe um comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s