Jornalismo de proximidade: difícil como sempre, fundamental como nunca

Como muitos jornalistas, comecei a minha carreira nos media regionais, no caso, numa rádio da Área Metropolitana de Lisboa. Então um garoto de 17 anos, fui recebido com genuína boa-vontade. Novato, sem qualquer experiência séria, aprendi e evoluí muito, numa redacção comprometida em fazer jornalismo com sentido inovador, mas sem perder o foco, respeitando a sua própria identidade. Os anos que passei na RDS foram uma escola e devo a essa experiência a versatilidade que julgo ter adquirido enquanto profissional.

O jornalismo de proximidade, pelo qual ganhei e mantenho um profundo respeito, é fundamental na representação mediática do conjunto do território, trazendo para a esfera pública questões que estão fora das agendas dos órgãos de âmbito nacional.

Em Portugal, o novo século ditou aquilo que se adivinhava há mais tempo e muitos dos projectos de jornalismo local e regional existentes, de norte a sul do país, acabaram por fechar ou foram vendidos a grandes grupos e total ou parcialmente desvirtuados. Isto coincidiu com um outro processo, de reforço das centralidades mediáticas, face a periferias progressivamente sub-representadas, como se o país estivesse todo e apenas nos grandes centros urbanos, com Lisboa à cabeça.

Foto de Pedro Jerónimo.
Pedro Jerónimo (©meditotejo.net)

 

Doutorado em Informação e Comunicação em Plataformas Digitais, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e licenciado em Comunicação Social e Educação Multimédia, pelo Instituto Politécnico de Leiria. Professor no Instituto Superior Miguel Torga, Pedro Jerónimo tem dedicado especial atenção ao estudo da imprensa local e regional, que conhece bem. Como jornalista, esteve nas redacções entre 2003 e 2014. Trabalhou n’O Mensageiro e no DesportoLeiria.Net, mantendo-se como freelancer e colaborador de diversos media regionais e locais. Foi Provedor do leitor do Setúbal na Rede – o primeiro órgão de comunicação social exclusivamente digital em Portugal – e do Diário da Região.

É o organizador do livro Media e jornalismo de proximidade da era digital, editado pelo LabCom.IFP, e que reúne contributos – até agora dispersos – de vários investigadores sobre as dinâmicas de ciberjornalismo nos media regionais, locais e hiperlocais. A obra serviu de pretexto para convencer o Pedro a dedicar-me alguns minutos do seu tempo.

Dedicas uma boa parte da carreira académica, enquanto investigador, ao jornalismo de proximidade, tantas vezes desvalorizado e tido como um jornalismo de segunda divisão. Mas não é assim, pois não?

De forma alguma! Essa divisão por jornalismo de 1ª e de 2ª chega a roçar o ridículo. Há jornalismo, há jornalistas. Ponto! A actividade jornalística começa sempre por desenvolver-se ao nível local. Já o alcance deliberado, considerando a linha editorial e territórios de intervenção, ou inesperado, quando à partida não sabemos o alcance que as notícias vão ter (p.e. o atentado às torres gémeas, a 11 de Setembro de 2001, nos EUA), esse é que varia. Podemos ter notícias de interesse ou alcance hiperlocal, da rua, do bairro, ao alcance internacional, que se propagam um pouco por todo o globo.

Os jornalistas têm a mesma formação, a mesma carteira e os mesmos direitos e deveres profissionais. No jornalismo de proximidade, a diferença de escala coloca os jornalistas sobre mais pressão, porque as fontes ou visados das notícias são pessoas com as quais se cruzam no quotidiano, numa simples ida ao café ou supermercado. Esta “proximidade demasiado próxima” – de que nos fala Carlos Camponez, no livro Jornalismo de proximidade – tem destas coisas. E é do resultado do jornalismo desenvolvido a este nível que se ‘alimentam’ os media nacionais. Pergunto-me o que seria deles se a imprensa regional resolvesse fazer greve durante uma semana. Ela e a agência Lusa. Com o emagrecimento das redacções, devia de ser bonito.

Contudo, é de lamentar a forma como ainda se olha para o jornalismo e profissionais que actuam ao nível local e regional. Por vezes, e mais grave, quando assim é dentro da própria classe. Quando ditos jornalistas trabalham a partir de notícias publicadas por aqueles meios, indo aos seus sites informativos, sem referir fontes. Coisa que já não fazem quando se trata dos media nacionais, internacionais ou até regionais de outros países, que citam, aparentemente, sem qualquer problema. Como questionei no 4.º Congresso dos Jornalistas Portugueses, realizado no passado mês de Janeiro, como é que é possível que isto aconteça? Entre jornalistas? Entre pares? E do mesmo país?!

A iniciativa Rede Expresso, no passado e focada na distribuição em papel, e agora o Público Cidades, no digital, parecem-me mais operações de cosmética do que outra coisa. Agrega-se informação produzida por outros, no caso jornais regionais parceiros, e está feito. Investem nas próprias redacções? Não.

Pedro Jerónimo

Que papel tem ou pode ter o jornalismo de proximidade no actual contexto mediático?

É fundamental, na medida em que está na linha da frente. Está onde os media nacionais extinguiram delegações. Por outro lado, é aos profissionais que trabalham nos media locais e regionais que a agência Lusa recorre para ter correspondentes. Veja-se o caso dos incêndios em Portugal, de Junho e Outubro. Muitas imagens e notícias em primeira-mão foram avançadas por meios locais e regionais, que depois os nacionais, como algumas televisões, usaram para ilustrar as suas peças. Precisamos de quem acompanhe e vigie os poderes, nomeadamente locais. Ainda há dias, no debate sobre “a sobrevivência dos cibermeios”, na Universidade do Porto, a directora de um deles dizia que eram o único órgão de comunicação social daquele território que acompanhava todas as reuniões de câmara e assembleias municipais, com liveblogs. Foi uma intervenção que me surpreendeu. Se não forem casos como este a fazê-lo, o que é que chega à população? Se é que chega. A comunicação ‘mastigada’ pelos gabinetes de comunicação, quando existem? Depois, na era das redes sociais e da diluição do jornalismo num pântano informativo, é fundamental o papel dos jornalistas. Nunca foram tão necessários. Sobretudo para nos ajudarem, sociedade, a ter temas tratados em profundidade e com um selo de garantia. Isto quando notícias, notícias falsas e conteúdos de entretenimento, circulam ‘lado-a-lado’. É também necessária educação para os media, que ajude adultos, jovem e crianças, a saber distinguir as coisas. E aqui a comunicação social, os jornalistas, pela missão social que têm, assumem um papel extremamente relevante.

Durante anos, alguns dos principais órgãos de comunicação social portugueses procuraram manter canais abertos para o jornalismo regional e local, o que deixou de ser feito. Entretanto, iniciativas como o Público Cidades parecem querer resgatar esse legado. Estaremos numa fase de revalorização deste tipo de jornalismo ou é só cosmética?

A iniciativa Rede Expresso, no passado e focada na distribuição em papel, e agora o Público Cidades, no digital, parecem-me mais operações de cosmética do que outra coisa. Agrega-se informação produzida por outros, no caso jornais regionais parceiros, e está feito. Investem nas próprias redacções? Não. Ok, estabelecem-se parcerias e ao menos assim usam-se conteúdos com o consentimento dos autores. Vejo este tipo de iniciativas como um tentar resgatar algo que, em alguns media, se foi perdendo, que foi a atenção permanente e continuada aos pequenos territórios e suas comunidades. Quem faz isso são os media regionais e locais. Se há uma revalorização, será a de se ter percebido que não há gente nem meios para o fazer nos nacionais, mas já que os há nos regionais, vamos trabalhar em parceria. Parceria essa que será mais benéfica para os primeiros do que para os segundos. Os media nacionais agregam conteúdos dos regionais, enquanto estes ficam associados a marcas mais conhecidas. No final e pesando bem as coisas, ganham mais os nacionais do que os regionais. E não serão uns clicks a mais, que remetam para aqueles, que vão fazer a diferença.

Os media locais e regionais, aqueles que resistiram, souberam adaptar-se aos novos tempos e dar o salto para a era digital?

Sim, mas nem todos. Aliás, só uma minoria está a trabalhar de forma mais ou menos pensada, integrada, assumindo as multi-plataformas existentes (papel, web e mobile). Quase todos têm um site, mas são poucos os que têm uma estratégia e produzem com regularidade. Menos ainda são os que têm uma estratégia que seja assumida pelas empresas. Boa parte da produção e dos conteúdos multimédia que vemos são fruto da carolice de alguns jornalistas.

Seja como for, temos já alguns jornais regionais a explorar os dispositivos móveis. Ok que é uma lógica primitiva do ciberjornalismo, isto é, a mera transposição de conteúdos entre meios – do papel para a web e desta para o mobile – mas é de registar. Sobretudo porque os primeiros passos registaram-se há sete anos, em 2010.

Tem sido sempre uma forma de actuar reactiva e tímida, por parte da imprensa regional portuguesa, mas há também casos pontuais, de quem procura inovar, desbravar caminho. Claro que são poucos casos, num universo de centenas de meios locais e regionais. Uma coisa tenho notado: quem melhor tem resistido – a imprensa regional é especialista na gestão de crises, porque sempre esteve em crise – é quem tem apostado no jornalismo com jornalistas.

 

Imagem em destaque: http://blog.imprensa.me/jornalismo-digital-ferramentas-e-recursos-que-todo-jornalista-deve-conhecer/