Desculpa, mas já não dá para confiar em ti!

Uma sondagem realizada pelo instituto Poynter, nos Estados Unidos, revelou que 52 por cento dos norte-americanos não confiam no jornalismo que é feito naquele país. O que podemos concluir daqui, sem grande esforço, é que quando mais de metade da população de um país não confia naquilo que os seus jornalistas andam a fazer, então há um problema a merecer a nossa melhor atenção.

Tenho defendido a importância do jornalismo nas sociedades contemporâneas hipermediatizadas. O tema não está, porém, esgotado e a ele voltaremos sempre que necessário, como é o caso.

Quando uma democracia não pode contar com jornalismo de qualidade e no qual confia, então é o próprio sistema que está em risco. O jornalismo é fundamental no escrutínio dos poderes e das instituições, imprescindível no papel de mediador entre representantes e representados. E essa centralidade não deve ser posta em causa pelas mudanças aceleradas e profundas no panorama mediático. O facto de sermos hoje, todos nós, produtores de conteúdo em potência, não retira preponderância à actividade jornalística, pelo contrário. Num contexto em que todos temos capacidade de ‘dizer algo’ e, fazendo-o, chegar às massas, é vital que exista quem, tecnicamente preparado para o efeito, seja capaz de editar o mundo. Sozinhos, não vamos lá. Sozinhos, somos terreno fértil para o surgimento e crescimento de nuvens comunicacionais às quais, entre outras coisas, chamamos de “era da pós-verdade”.

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© Poynter Institute

Desconheço a existência em países lusófonos de estudos de opinião semelhantes à pesquisa do Poynter, mas admito que possam existir (em Portugal, encontrei uma categoria “comunicação social e jornalistas” num barómetro da Aximage sobre confiança nas instituições, mas a metodologia é distinta e não é um bom termo de comparação). Ainda assim, creio que é sensato consentir que, sim, também entre nós há uma desconfiança crescente sobre o jornalismo.

Sempre que penso nesta questão, encontro duas grandes causas. Uma primeira, interna, directamente ligada às redacções e às estruturas hierárquicas. Uma segunda, externa, resultado do meio envolvente desfavorável. Confuso? Vamos por partes.

Internamente, dentro das organizações, temos assistido a anos de desvalorização da profissão e do seu capital humano, por razões que são mais ou menos conhecidas: menos receitas, despedimentos, estruturas magras, salários cada vez mais baixos, menos massa crítica, menor qualidade e por aí adiante. Ao mesmo tempo, fragilizados por uma diminuição de rentabilidade (antes com taxas de retorno formidáveis), os grupos de media correram a abrir o capital a dinheiro fresco, com origem em grupos de interesse que encaram o negócio não como um fim em si mesmo, mas como um investimento com ganhos reputacionais e de influência a médio e longo prazos. Ora, vejam bem a combinação perfeita: por um lado, estruturas enfraquecidas, por outro, o lobismo.

Externamente, o tal contexto de produção e distribuição indiscriminada de conteúdos, mediados por algoritmos e potenciados por figuras que, percebendo o potencial de tribalização (decorem esta palavra) oferecido pelo novo paradigma comunicacional, promovem a diabolização da informação humanamente mediada, a.k.a. jornalismo, encontrando nos baixos níveis de literacia mediática o terreno fértil para um cultivo em larga escala.

Dito isto, perguntam-me vocês, “ok, e agora”? Pois, agora é que são elas. A resposta contemplará, disso não tenho dúvidas,  o cumprimento daquela que é a missão fundamental do jornalismo, nos termos em que a estruturei há alguns parágrafos. Assim:

i) Resgatar o jornalismo dos interesses que diminuem o seu exercício e destroem a sua reputação – e para isso encontrar novos modelos de negócio;

ii) Escrever notícias visando o interesse público e não o interesse do público.

iii) [last but not least] Apostar na educação para os media.

Sobre o terceiro ponto, há uma semana falávamos sobre transparência, lembram-se? Aqui fica mais um exemplo, agora do Wahsington Post, que decidiu iniciar uma espécie de ‘curso rápido para compreender o que é que andamos aqui a fazer’. Não chega, pois não, mas podemos começar por uma coisa simples assim.

A new poll by the Poynter Institute, a journalism nonprofit, finds that while overall trust and confidence in the press has increased during the Trump administration, 52 percent of those surveyed don’t trust the news media. More than half of America is skeptical of journalists’ motives.

With that in mind, The Post launched a new series aimed at deconstructing the journalism process while answering questions about how reporting works.

, Washington Post

 

 

Imagem em destaque: Huffington Post