Manuel Delgado e Paula Brito e Costa: a vida privada pode ser notícia?

A jornalista Ana Leal assinou sexta-feira, 8, na TVI uma reportagem de investigação sobre alegado uso indevido de dinheiro da Raríssimas, Associação Nacional de Doenças Mentais e Raras, por parte da sua ex-presidente e fundadora, Paula Brito e Costa (que se demitiu esta semana). A instituição é financiada por donativos e apoios do Estado.

O trabalho jornalístico é sustentado em depoimentos e provas documentais que demonstram despesas feitas pela visada e que a narrativa jornalística sugere serem excessivas ou despropositadas, tendo em conta a natureza e objectivos da associação e o seu modelo de financiamento.

Esta terça-feira, num follow up da história inicial, a mesma jornalista entrevistou o agora ex-secretário de Estado da Saúde, Manuel Delgado (ainda no cargo à hora da gravação). Na reportagem inicial, Manuel Delgado é apresentado como antigo consultor avençado da Raríssimas (2013-2014) e, mais uma vez, sugere-se um alegado exagero de valores acordados e pagos. Durante a entrevista, o antigo governante é questionado sobre o desempenho das suas funções – anteriores ao exercício de funções governativas – e sobre a “imoralidade” dos valores que terá recebido.

Na recta final, a jornalista interroga Delgado a propósito das viagens que este terá feito com Brito e Costa: para que destinos, com que objectivos e suportadas por quem. Finalmente, Ana Leal confronta o entrevistado com evidências de uma viagem conjunta ao Brasil e mostra fotos da então presidente da Raríssimas ao lado do seu antigo consultor. As fotos evidenciam cumplicidade e sugerem um possível relacionamento íntimo. O espectador vê essas fotos e a entrevista termina com Manuel Delgado a negar qualquer envolvimento ou que tenha ido passear ao Brasil à custa da Raríssimas.

O secretário de Estado tinha dito em comunicado, no seguimento da investigação que nunca tinha tido uma voz activa, interferido na gestão ou tido conhecimento das dificuldades da Raríssimas e hoje foi confrontado com documentos que o põem em xeque e que não corroboram o que tinha dito.

Ana Leal, TVI

Não vamos aqui avaliar o mérito da reportagem da TVI. O que nos interessa são os derradeiros instantes da entrevista que foi para o ar esta terça-feira e que nos coloca perante um dilema ético. Será legítimo o uso jornalístico de fotos da vida íntima de duas pessoas? Se sim, em que contexto?

A regra geral é óbvia: a vida privada é… privada. Acontece que não existem regras sem excepção, pelo que questiono: em condições excepcionais não será aceitável que o jornalista sacrifique o direito do outro à vida privada? Hum, hum. Vejamos quando.

No trabalho jornalístico, a invasão da esfera privada de qualquer pessoa é aceite quando em causa está uma informação fundamental para a narrativa jornalística. Quando o sacrifício de determinado facto, porque íntimo, comprometeria a construção da notícia e afectaria o interesse público.

No caso concreto da reportagem da TVI, ao cumprir o exercício que os ingleses chamam de editorial judgment, teríamos que responder previamente a algumas perguntas:

  • Qual o propósito da viagem e quem pagou a factura?
  • Manuel Delgado e o seu antigo vínculo profissional com a Raríssimas é, por si só, notícia? Se sim, porquê?
    • A posição governativa agora ocupada (mas não à data do exercício de funções na associação) é determinante para que esse relacionamento passado seja jornalisticamente importante?
  • Uma alegada relação íntima entre Delgado e Brito e Costa é relevante para a matéria? Em que medida? A relação começou antes ou durante a prestação de serviços?
    • O consultor foi beneficiado pela suposta relação com a presidente da Raríssimas? Existem provas de causa-efeito?
  • Sacrificar o direito à vida privada das duas figuras citadas é central para a compreensão da história ou quero apenas ‘apimentar’ o caso com um pormenor que me vai render audiência?
  • Ao divulgar esta informação, estou a salvaguardar o interesse público ou a satisfazer o interesse do público?

Não conheço o caminho percorrido por Ana Leal. O que sei é que as questões éticas são sempre delicadas, motivo pelo qual é fundamental conservarmos o discernimento e a preparação técnica necessários para avaliar e decidir da melhor forma possível. É que, às vezes, para ser efectivo, o jornalismo deve ser desruptivo. Noutras ocasiões, porém, o jornalismo é apenas destrutivo e, nesses casos, todos perdem, ninguém ganha.