De Caparrós à pós-verdade

Leio Martín Caparrós, na Lusa:

Isto da pós-verdade, de que se fala tanto, é uma forma de nos convencer de que antes não se fazia o que agora se faz. Tenho 44 anos de jornalismo e não tenho de todo a sensação de que hoje se invente mais do que antes (…). Se contasses uma mentira há 20 anos, num jornal de Barcelona, havia um universo limitado de gente que te podia desmentir. Já não podes fazer mais isso. Se mentes, se copias, se plagias, é muito provável que haja alguém, do outro lado do mundo, ou perto de tua casa, que se aperceba disso.

Martín Caparrós

Vencedor do Prémio Maria Moors Cabot, da Universidade de Columbia, atribuído a repórteres de “grande coragem, convicções e mestria”,  Caparrós passou por Lisboa, para discutir jornalismo, no XXIII Fórum Euro-Latino-Americano de Comunicação, organizado pela Associação de Jornalistas Europeus e pela Fundação Gabriel García Márquez.

A ideia do jornalista argentino, autor do livro-reportagem A Fomeé apelativa, mas o repórter parece cair numa confusão comum entre conceitos, ao circunscrever a análise da pós-verdade à realidade das fake news. Estando relacionados, os termos representam, na minha interpretação, realidades apenas parcialmente paralelas. A pós-verdade não se reduz às notícias falsas.

Sim, aquilo a que hoje chamamos de fake news corresponde a uma realidade tão antiga como o próprio jornalismo (ou anterior a este). A contra-informação, os boatos, as mentiras estão intrinsecamente associados à prática jornalística e à vida em sociedade. E a viralidade que hoje lhes está subjacente funciona nos dois sentidos: é mais fácil propagar uma mentira, mas é também mais fácil combate-la.

A pós-verdade, porém, assume contornos mais profundos, relacionados com as alterações que experimentamos nas nossas comunidades e que, partindo da esfera mediática, atingem planos mais pessoais/emocionais. Todos gostamos de ter razão, mas ter razão sobre um determinado assunto deixou de significar estar certo sobre esse tema. A verdade objectiva conta menos do que as nossas convicções pessoais. “Eu acredito, logo estou certo”.

Esse ‘ímpeto do eu’ é favorecido pelo factor de tribalização oferecido pelos novos espaços públicos virtuais, como é o caso das redes sociais, nos quais facilmente assumimos o papel que quisermos desempenhar e onde nos rodeamos de pessoas que, pensando como nós, nos oferecem poucas oportunidades de contraditório. Olhar para a forma de trabalho do algorítmico do Facebook é uma boa forma de compreender como é que este processo actua e nos leva a uma falsa ideia de consenso: os amigos que mais nos aparecem no feed são aqueles com quem temos mais ‘coisas em comum’; as sugestões de amizade, a publicidade, as páginas propostas estão directamente relacionadas com os nossos gostos, pesquisas e interacções. Ou seja, somos levados a criar à nossa volta uma rede que nasce e se multiplica a partir da partilha de interesses.

Nesta discussão, creio que a maior crítica [justa] que podemos fazer aos media é por omissão: por não terem conseguido assumir a dianteira, acompanhando os processos recentes de transformação social e antecipando que as necessidades do público estavam, também elas, a mudar.

A pós-verdade combate-se com uma sociedade mais esclarecida, com maiores níveis de educação mas, acima de tudo, com maior grau de literacia mediática e com cidadãos melhor preparados, mais aptos a questionar e criticar, que não se contentem com o óbvio e que ponham em causa as suas próprias convicções. Partilho com o Caparrós a ideia de que o jornalismo não está em crise. A crise está nos modelos de negócio. Dito isto, é precisamente por acreditar na continuada centralidade do jornalismo que acredito no seu papel catalisador da mudança necessária, no seu regresso ao centro mediático, que deve ser seu, assim saiba ser digno do lugar.

Martín Caparrós

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