Alexandre Barbosa: “A crise também é resultado de formas viciadas de fazer jornalismo”

Com o jornalismo em mudança, que jornalismo ensinar? Foi com esta pergunta na ideia que, há dias, contactei o Professor Alexandre Barbosa, doutorado em ciências da comunicação e docente na Universidade de São Paulo, Fapcom e Uninove (os links estão todos na biografia, no final do artigo), no Brasil. Conheci-o há pouco mais de um ano, na morte de Fidel Castro, quando procurava alguém com pesquisa feita sobre a América Latina. Em boa hora cheguei ao vídeo de uma participação sua num programa televisivo (na Globo, creio). Não só o Alexandre sabe do que fala, como é de uma disponibilidade e paciência assinaláveis.

Abusando novamente da sua simpatia, conversámos um pouco sobre os desafios da docência e a responsabilidade que é formar jornalistas às portas de 2018.

O Alexandre ensina jornalismo num tempo em que o jornalismo é tão criticado, não só na sociedade brasileira, como no mundo, em geral. Isto representa um desafio extra?

Falo sempre para os alunos que o que está em crise não é tanto o jornalismo mas os modelos de negócios da indústria jornalística, o que, por extensão, acaba afectando também o jornalismo alternativo ou das classes populares. Afecta pois, por mais paradoxal que seja, o jornalismo alternativo ou das classes populares muitas vezes imita ou mimetiza as estratégias da indústria jornalística. E como essa indústria está em crise, ela afecta também a produção do jornalismo alternativo.

As críticas mais fundamentadas ao jornalismo vão em duas linhas. Numa delas, de que há muita manipulação motivada por interesses económicos, corporativos ou políticos. A outra é que o jornalismo deixou de ser uma natividade importante para a cidadania, muitas vezes preso aos ambientes palacianos, à indústria cultural ou às futilidades, longe da vida real. De convergente nessas duas críticas está o facto do jornalismo ter se distanciado de ouvir os vários lados da história e, principalmente, o lado dos que têm menos poder de voz, como as camadas mais pobres e mais negligenciadas pelos meios de comunicação. Ou seja, a reportagem está cada vez mais distante do jornalismo e isso o torna ou declaratório (publica-se apenas a versão de um lado e de outro, sem contrapontos) ou burocrático: “cozinha-se” (numa expressão brasileira) o release recebido da assessoria de imprensa. Isso fez, ao longo dos últimos anos, o jornalismo ter perdido público, audiência, criatividade. A crise económica da indústria jornalística é resultado disso. Claro que há um componente do capitalismo actual de se fazer mais com menos. Isso tudo resulta num cenário de muitas demissões e fechamento de veículos.

Os estudantes olham para esse cenário desmotivados, pois não enxergam possibilidade de sucesso. Aqui no Brasil é comum a piada que quando o estudante escolheu fazer jornalismo, ele sabia que não ficaria rico. O nosso desafio, como professores, é mostrar para os alunos que a crise tem componentes contextuais (como o capitalismo, o neoliberalismo), mas também é resultado de formas viciadas de fazer jornalismo e do abandono da reportagem. A cada desânimo de um aluno, o professor tem de mostrar bons exemplos, coberturas criativas, iniciativas empolgantes de veículos – não necessariamente grandes. Aliás, quase sempre, há veículos menores, como o Jornal Nexo, que mostram como a reportagem é um dos caminhos para sair da crise.

Foto de Mariana Manetta.
Alexandre Barbosa

Esta é uma profissão que mudou muito, ao longo dos últimos anos. Que expectativas trazem os novos alunos quando chegam à universidade?

A TV ainda é um veículo com muito glamour, mais do que foi na minha geração, em que havia muita vontade de trabalhar nos grandes veículos impressos, diários ou semanais. Essas expectativas mudam muito de acordo com a universidade que eles frequentam e também das condições sócio-económicas. Conheço alunos que sonham em deixar suas profissões actuais (quase sempre os degraus mais baixos na hierarquia empresarial) para conseguirem trabalhar na comunicação, não importa em qual área. Esses, muitas vezes, se encontram nas áreas de comunicação institucional. No Brasil, o curso de Relações Públicas não é tão difundido e os jornalistas são chamados para actuar nessa área, que hoje é a de maior empregabilidade e estabilidade. Há outros estudantes que sonham com os grandes veículos, pois sabem que os colegas são chamados nos processos selectivos. Aquele espírito de fazer jornalismo para mudar o mundo, como foi nos anos 80 e 90, hoje está cada vez mais raro. Jornalismo passou a ser uma alternativa para quem gosta de escrever, mas entende que ser escritor não é tarefa fácil. A área de esportes atrai muito, pelo peso que os esportes têm na cultura brasileira. Curioso é que vários têm canais no YouTube, mas, pelo menos nas gerações para as quais sou professor, ser youtuber não está tão no horizonte. Talvez isso seja um sentimento das gerações mais novas.

A academia brasileira e as escolas brasileiras de jornalismo souberam adaptar-se às mudanças na profissão, ajustando os seus planos curriculares e metodologias de ensino?

No Brasil, houve avanços significativos com as novas DCN (Diretrizes Curriculares Nacionais de Jornalismo) que colocaram a obrigatoriedade de disciplinas de comunicação institucional e assessoria de imprensa, além das de gestão. Essa realidade não poderia ser escondida. É a área de maior empregabillidade e a de primeiro acesso para estudantes de instituições menos renomadas. Em uma das universidades em que actuei, aproveitámos tanto essas novas DCNS que incluíamos várias disciplinas de comunicação interna, marketing, gestão, etc., pois essa é a formação que os alunos daquela instituição mais precisavam. Houve o avanço da inclusão do estágio como actividade reconhecida, mas aí houve também exagero. O estágio era proibido e nossa luta como professores era que sua existência fosse reconhecida. Mas ele saiu do proibido para o obrigatório, o que não combina com as centenas de estudantes que entram a cada semestre nas instituições particulares. Com o tempo, isso pode aumentar a precarização. Outro ponto importante é que o fetiche da tecnologia não pode turvar a visão de quem elabora os planos curriculares. A tecnologia é sedutora e ás vezes parece soar como toque de Midas. Mas, justamente pela evolução tecnológica, é possível aprender o software quase que por conta própria. Agora, o domínio dos conceitos para saber usar esse software é o ensino superior que precisa dar. E isso é um enorme desafio, pois o estudante quer aprender o software, mas isso é coisa de curso técnico.

A melhor forma do aluno compreender o que é a ética é, depois de aprender os conceitos, exercitar na prática

Alexandre Barbosa

Uma coisa não muda, porém: a centralidade da ética no exercício da actividade jornalística. Contudo, as questões de ética, elas próprias, também são hoje mais complexas. Que espaço é dado à ética no processo de formação jornalística?

A Ética é uma disciplina presente em todos os currículos. Mas com a minha experiência na orientação do Jornal do Campus, da ECA-USP, a melhor forma do aluno compreender o que é a ética é, depois de aprender os conceitos, exercitar na prática com o jornal-laboratório. Lá ele será confrontado com os limites éticos da profissão. Do contrário, ele só fará isso no estágio ou já formado, quando, muitas vezes, as normas ocupacionais podem falar mais alto e o estrago é muito maior. Houve várias situações que presenciei, nestes dois anos de Jornal do Campus, que tenho certeza serão lembradas pelos alunos pelo restante das carreiras.

E estaremos nós a preparar convenientemente os novos jornalistas para que, perante o contexto difícil, eles possam fazer melhor?

Pelos colegas e pelos cursos que conheço sei que todos têm as melhores intenções e estão preparados para ensinar, respaldados por projectos pedagógicos bem construídos. Sinceramente, o que me preocupa são as novas relações de trabalho no ensino superior brasileiro que obrigam os professores a soluções mais criativas para fazer equação entre ensino e prestação de serviço ao cliente. Como há, regularmente, a prova do Enade, ainda há freios para a precarização das condições de trabalho. Algumas instituições têm medo de serem mal avaliadas no Enade e se esforçam para melhorar as condições de ensino. Mas se esse freio deixar de existir e nada for criado no lugar, a relação capital trabalho pode falar mais alto em favor do capital. Por enquanto, os cursos no geral estão se preocupando em formar jornalistas para dar conta desses desafios e cada instituição, diante de seu público, entrega um bom trabalho.

O Alexandre comenta muito sobre a importância da decisão que tomou de deixar os cargos de coordenação e regressar à sala de aula. Fale-me sobre essa decisão. 

Sempre amei a sala de aula e sou muito feliz nela. Como coordenador tenho muita alegria em dizer que fiz trabalhos, ao lado de meus companheiros, que trouxeram grande felicidade também. O curso que coordenei por quase dez anos obteve conceito 5 no Enade (nota máxima pelos padrões do Ministério da Educação do Brasil). Mas fora esse dado da nota, eu e meus colegas fizemos actividades que foram muito importantes para os alunos. Criámos a Mostra de Melhores Produtos Jornalísticos, uma forma de reconhecer os melhores trabalhos feitos pelos aluno no semestre. Numa área com tanta competição, a Mostra era uma forma de dar afecto e reconhecer o esforço e a qualidade. Implantámos as aulas inaugurais, com profissionais do mercado debatendo temas que considerávamos relevantes para as discussões do semestre. Profissionalizámos a semana da comunicação, também para trazer profissionais do mercado para a academia. Sou feliz de ter equipes que trabalhavam como parceiros num projecto em prol do aluno.
Mas penso que a coordenação deveria ser o modelo das públicas: mandato com tempo de duração e a possibilidade de novos colegas assumirem. Pode parecer meio caótico, mas isso dilui a responsabilidade da coordenação que é uma actividade muito solitária. Eu gostava de ter uma espécie de “ministério”: consultava os colegas mais experientes e mais queridos pelos alunos, para saber o que pensavam antes de tomar uma decisão. Ficar sozinho na coordenação não doía pelo excesso de trabalho, mas pela impossibilidade de compartilhar ideias. Sempre priorizei as decisões colegiadas. Na sala de aula, o reconhecimento – ou não – do trabalho é imediato e com os alunos aprende-se dia a dia. Não voltei para sala de aula para trabalhar menos, pois a carga de trabalho do professor é também muito grande. A responsabilidade, da mesma forma, é muito maior. Porém, na sala de aula você se renova diariamente. Aprende as tendências, compreende as novas situações, as novas demandas, as novas relações sociais. Isso me torna um professor melhor, um pesquisador melhor, um jornalista melhor. O frescor dos alunos é o oxigénio do jornalista-pesquisador e eu precisava disso. Não digo que não voltarei a ser coordenador, mas por hora essa renovação me fez muito bem.

 

Sobre Alexandre Barbosa:

Doutor em Ciências da Comunicação (ECA-USP), Mestre em Jornalismo Comparado (ECA-USP), Especialista em Jornalismo Internacional (PUC-SP), Jornalista (UMESP). Pesquisador e professor do Celacc (Centro de Estudos Latino-americanos sobre Comunicação e Cultura). Professor doutor da Faculdade Paulus de Comunicação e Tecnologia (Fapcom) e da Universidade Nove de Julho. Entre 2016 e 2017 foi professor-doutor contratado do curso de Jornalismo da ECA-USP e professor-orientador editorial do Jornal do Campus. Autor do livro “A Solidão da América Latina na Indústria Jornalística Brasileira​” (Alexa Cultural) e organizador dos livros Jornalismo em Géneros, volumes I, II, III e IV, publicados pela ECA-USP. Autor de artigos sobre Comunicação e Cultura popular da América Latina publicados em revistas científicas do Brasil e da América Latina. Foi vencedor do Prémio Professor Imprensa 2017 (3a edição) na categoria Coordenador de Jornal -Laboratório região sudeste. O Prémio é promovido pela revista e pelo portal Imprensa, com apoio da Intercom.

Foi assessor de imprensa do Cenpec, do Centro Paula Souza e actuou como repórter na revista Nova Escola. Foi roteirista de cursos e-learning da Fundação Vanzolini.

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