Fazer bem feito: A entrevista jornalística (parte I de III)

Tenho, entre os leitores do site, muitos estudantes de jornalismo. Ocasionalmente, recebo mensagens com perguntas ou sugestões de temas. Um desses leitores, em Luanda, escreveu-me há dias um email pedindo que dedicasse um texto à entrevista jornalística. “Como fazer uma boa entrevista?”, perguntava-me. Vou responder em três textos, não necessariamente consecutivos. Vamos a isto, então (mas sem verdades absolutas, ok?).

A entrevista é a base da actividade jornalística. Simplificando, o jornalista faz perguntas e espera respostas. Dominar a técnica da entrevista é, por isso, fundamental. Ainda passeava pelos bancos do liceu quando ouvi de um jornalista – agora escritor – a frase que melhor resume aquilo que fazemos (se quisermos faze-lo bem feito): “o bom jornalista não é aquele que sabe tudo, é aquele que pergunta tudo”.

Ao contrário da imagem que resulta do senso comum, entrevistar vai muito além daquela ocasião em que entrevistador e entrevistado se encontram cara a cara, em conversa demorada. O jornalista também entrevista quando pega no telefone e faz três perguntas a uma fonte sobre uma decisão judicial. O jornalista também entrevista quando está na rua a tentar perceber o que se passou no assalto a um banco. O jornalista também entrevista quando está numa conferência de imprensa.

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Quanto ao tipo, costumo dividir as entrevistas em três grupos. O primeiro, é a chamada ‘entrevista exploratória‘. O segundo, a ‘entrevista principal‘. O terceiro, a ‘entrevista de confirmação‘.

A entrevista exploratória ocorre numa fase preliminar do trabalho jornalístico, quando o jornalista averigua informações, procurando confirma-las ou desmenti-las. Voltando ao assalto ao banco, é quando o repórter, depois de ver um tweet a propósito, liga para a esquadra à procura de saber se é mesmo verdade que a agência bancária está a ser assaltada.  Há ou não há notícia? Este tipo de entrevista tem outro propósito relevante: fornecer contexto. Ao preparar-se para cobrir determinado tema, o jornalista procura compreender melhor o que está em causa.

Como o nome indica, a entrevista principal é o momento principal de recolha de informação, durante o qual se realizam as entrevistas a fontes que provavelmente serão citadas. A citação é uma componente importante fundamental da notícia, credibilizando-a. É imprescindível que o entrevistado saiba que as declarações que está a proferir serão publicadas e isso deve ser deixado claro desde início. Como, muito provavelmente, a entrevista é um momento único, convém acautelar algumas coisas para tiramos o melhor partido daqueles minutos que nos foram dispensados:

  • Preparação: na medida do possível, pesquisar sobre o tema, enquadra-lo (por via de entrevistas exploratórias ou pesquisa documental). A investigação não tem que ser demasiado exaustiva – recordemos a máxima do “jornalista que pergunta tudo” – mas deve, pelo menos, permitir-nos compreender o fundamental.
  • Guião: não é vergonha nenhuma preparar algumas perguntas previamente ou, no mínimo, registar tópicos que nos pareçam relevantes. Contudo, sugiro que se evitem guiões demasiado estruturados ou fechados, que transformariam a entrevista num simples questionário (na mesma lógica, confiar na capacidade de improviso, conhecimento ou experiência, também tende a dar maus resultados)
  • Recolha: Gravar sempre! Mesmo quando a entrevista é curta, o gravador é fundamental, já que nos atraiçoa menos que a memória. Em entrevistas fundamentais, redundância, duplicando os métodos de gravação (por exemplo, além do gravador, o telemóvel). Porém, não dispensar o bloco de notas (que faz o repórter!), com anotações sobre as ideias principais, o que permitirá compensar qualquer falha tecnológica e facilitará o tratamento posterior da informação.

Prestes a começar uma entrevista? Já perguntaram nome e função da pessoa que vão entrevistar?


Já a entrevista de confirmação acontece antes da publicação da matéria, numa fase avançada da sua elaboração. É nesta altura que o jornalista procura confirmar informações. Esta é uma etapa fundamental para a garantia do rigor (accuracy, uma expressão em inglês de que muito me agrada). Estes números estão certos? Terei eu entendido bem a sequência de factos? Percebi o que está em causa? Apliquei correctamente a linguagem técnica? Habitualmente, a entrevista de confirmação é feita junto de um especialista e é particularmente vantajosa quando trabalhamos temas delicados, muito técnicos ou com muitos números (direito ou economia são áreas escorregadias). Este é um trabalho que se aproxima da missão dos fact-checkers, presentes nas redacções dos principais órgãos de comunicação social, mas que deve ser feito, desde logo, pelo autor da peça.


Regra geral, nas entrevistas exploratórias ou de confirmação, as fontes ouvidas não serão citadas, a não ser que a relevância das suas declarações a isso aconselhe.


Válido para qualquer tipo de entrevista, o princípio da adequação do discurso ao entrevistado deve ser respeitado. Com quem estou a falar? Os entrevistados têm níveis de escolaridade diferentes e diferentes capacidades de oratória. Cabe ao entrevistador ajustar o discurso, visando, no imediato, o estabelecimento de uma relação empática com o entrevistado mas também, no limite, salvaguardar que o público (leitor, ouvinte, telespectador) conseguirá ‘chegar lá’.

A minha escola principal é a rádio, pelo que valorizo muito o tempo. Nos dois extremos, entrevistados que falam muito ou aqueles que falam muito pouco são dores de cabeça garantidas. Apesar disso, atenção: saber gerir o tempo da entrevista, evitar desvios do tema, manter o entrevistado focado – com elegância, mas de forma assertiva – é diferente de querer transformar a entrevista num espectáculo do entrevistador.

No próximo texto, vou partilhar convosco a minha experiência na condução de entrevistas e deixar algumas dicas e truques para enfrentar com sucesso entrevistados impossíveis. Mais tarde, havemos de conversar sobre o tratamento da informação.

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