O Corvo: contar a Lisboa das pessoas que fazem cidade

Já aqui falei da importância do jornalismo de proximidade. Em Dezembro, conversei com o Pedro Jerónimo a propósito da sua experiência de investigação nesta área. Regresso hoje ao tema.

O Corvo nasce da constatação de que cada vez se produz menos noticiário local”, lê-se na apresentação deste jornal digital, fundado em Lisboa, em 2013. O Corvo tem a particularidade de abordar Lisboa – cidade que é noticia todos os dias – numa perspectiva distinta da habitual mas sem por isso menos relevante.

Com uma equipa pequena e dificuldades financeiras comuns a tantos projectos do género, este online dá voz “às pessoas que fazem a cidade”, como nos diz o director editorial, Samuel Alemão, com quem conversei.

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Samuel Alemão (Noticiaria)

O Corvo é um projecto online de jornalismo de proximidade, dedicado a Lisboa. Gostava de saber mais sobre a experiência de contar uma Lisboa que foge aos meios mainstream.

A ideia é precisamente essa, fugir à agenda habitual dos maiores meios de comunicação social, através de uma abordagem assente no que supomos serem as principais preocupações de quem vive e trabalha em Lisboa. No fundo, estar do lado dos cidadãos, acompanhando o que de mais relevante acontece na vida da cidade. Tendo Lisboa a dimensão que tem, e sendo um facto inegável a nossa – do projecto – exiguidade de meios humanos, tal quadro revela-se um enorme desafio para O Corvo, claro está.

Jornalismo de proximidade numa cidade que é notícia todos os dias, que concentra atenção mediática permanente, que é o centro mediático mais representado do país. O que é que distingue a vossa narrativa jornalística?

Aí reside precisamente uma das nossas marcas identitárias. Por sermos um país macrocéfalo, onde quase tudo se passa em Lisboa, aos olhos de alguns, inclusivamente jornalistas, parece ser difícil discernir onde acaba o interesse nacional e começa o interesse local. Mas desde a primeira hora que temos bem presente a necessidade dessa destrinça. A nossa narrativa jornalística distingue-se por nos colocarmos ao nível da rua, das pessoas que vivem e fazem a cidade, tendo sempre presente que temos um alinhamento editorial assente naquilo que é intrínseco à cidade, e não naquilo que apenas tem a cidade por cenário. Sendo Lisboa a capital e um importante centro económico, há muita coisa de âmbito nacional e internacional que aqui se passa, que aqui se decide, mas que pouco ou nada tem quer ver com a realidade local.

Tem sido extremamente difícil. Muito, mesmo, nem imaginas quanto.

Samuel Alemão

Quem são os vossos leitores? Para quem escrevem?

Os nossos leitores são todos os que se interessam pela sua comunidade e possuem sentido crítico sobre os destinos da mesma. E que gostam de viver na cidade, algo que, por vezes, em Portugal, parece ser dito com timidez.

Fala-me um pouco sobre a origem do projecto. O jornalismo de proximidade não é uma novidade nas vossas carreiras.

Não é, de facto. Comecei por aí, tendo sido correspondente do extinto caderno “Local” do Público, versão de Lisboa, entre 1998 e 2001. Às pessoas a quem lancei o desafio para criar O Corvo, o Francisco Neves e a Fernanda Ribeiro, conhecia-as daí. Entretanto, ambas saíram. Na altura, em 2013, achei que esta era uma área que estava a ser mal trabalhada pelos jornais portugueses e, sendo eu um viciado na vida urbana, pensei que poderia criar algo de interessante neste campo. Houve uma feliz junção de vontades e de entusiasmos e assim nasceu O Corvo.

Como é que se mantém financeiramente um projecto deste género? Percebo que têm uma estrutura pequena, mas por mais pequena que seja a equipa, há custos inevitáveis.

Essa é a grande questão. Tem sido extremamente difícil. Muito, mesmo, nem imaginas quanto. O projecto fará cinco anos online a 1 de Março de 2018 e apenas há três meses estamos a trabalhar como uma empresa. Até aqui, tem sido muito baseado em esforço pessoal e boa vontade alheia. Vamos ver se conseguimos encontrar a tal estabilidade financeira.


Samuel Alemão nasceu em 1973, sempre trabalhou como jornalista. É licenciado em Ciências da Comunicação e foi correspondente do Público em vários concelhos da Grande Lisboa. Passou pelo diário A Capital, sem perder o vínculo ao jornalismo local. Freelancer, colabora ou colaborou com várias publicações, Revista de Vinhos, Notícias Sábado, Grande Reportagem. Entre 2009 e 2011 foi editor do projecto Migalhas – Cultura à Mesa. É director editorial do online O Corvo.